A policial e deputada fala de sofrimento e conquistas
09 de agosto de 2008
Brasil Entrevista - Marina Maggessi
Paloma Oliveto
De um aborto às incursões nos morros cariocas, policial e deputada fala de sofrimento e conquistas.
Em meados dos anos 1990, quando o Rio era dominado por chefões do tráfico como Elias Maluco, Uê e Marcinho VP, uma moça loura, bronzeada de sol e de tipo mignon subiu o morro para acabar com a era dos poderosos empresários da cocaína. Seja nas operações in loco ou na área de inteligência da Polícia Civil, a inspetora Marina Maggessi, depois delegada, enfrentou alguns dos homens mais temidos do país.
Eleita deputada federal pelo PPS, Marina, 49 anos, acaba de lançar a autobiografia Dura na queda (Objetiva). No livro, revela as fragilidades da inspetora que ganhou a simpatia da classe artística, da imprensa e dos colegas de corporação. Pela primeira vez, revela que foi vítima de abuso sexual, aos 7 anos, cometido por um tio. Também conta que, embora católica de freqüentar a missa todos os domingos, fez um aborto que teve como conseqüência não só o sentimento de culpa como a infertilidade para o resto da vida.
Filha de um típico playboy da década de 1950 com uma mulher simples, do interior, Marina teve uma infância complicada. O pai, alcoólatra, espancava a mãe, sob os olhares temerosos dos três filhos. A família passou por dificuldades financeiras, a ponto de Marina ser mordida por ratos no barraco onde moravam. Foi na educação que a então menina encontrou a salvação. Estudiosa, não poupou esforços para garantir uma bolsa de estudos num dos melhores colégios do Rio. Formada em jornalismo, profissão que nunca exerceu, Marina viveu a juventude como uma típica carioca. Pensava em ser repórter até que surgiu um concurso para a Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Ela desafiou preconceitos, ganhou o respeito dos colegas e se firmou como a inimiga número 1 dos traficantes cariocas. Mesmo sofrendo o baque de ser acusada de receber dinheiro do jogo do bicho — acusação jamais provada —, Marina seguiu em frente. Em Brasília, continua combatendo o crime, na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara.
No lançamento de Dura na Queda, que poderá ser transformado em minissérie da Rede Globo, ela conta que recebeu, como nunca, o apoio dos amigos. Entre eles, o jogador Romário, a empresária Flora Gil e o rapper MV Bill.
Sem papas na língua, Marina revela detalhes das operações policiais das quais participou com a mesma naturalidade com que fala de sua vida pessoal. Garante, por exemplo, que, ao contrário do que muita gente diz por aí, não é lésbica. Pelo contrário, conta que amou muitos homens. Em entrevista ao Correio, a deputada desabafa sobre as perseguições sofridas dentro da corporação e fala sobre a situação atual do tráfico no país.
--------------------------------------------------------------------------------
Temida e polêmica
No livro, a senhora revela episódios marcantes, como o aborto que fez e o abuso sexual de que foi vítima. Torná-los públicos foi uma espécie de catarse?
Não tenha dúvida. Foi uma catarse tremenda. Todo mundo sempre me viu como uma menina superpoderosa, e não sabe que já sofri coisas atrozes. A parte do aborto eu pensei em tirar porque eu sou católica. Você conhece a Igreja? Mas, depois que eu vi aquilo escrito eu pensei: “Eu não tenho direito de tirar essa parte”. Acho que sua vida é para isso, mostrar os exemplos, e cada um se vira do jeito que pode.
A senhora diz que seus piores inimigos não são os bandidos, mas a própria polícia. Por quê?
Quando o doutor Álvaro Lins (deputado estadual pelo PMDB, ex-chefe da Polícia Civil fluminense, acusado pela Polícia Federal de associação com a máfia) começou a ser alvo de ataques, todo mundo que estava em volta dele começou a ser envolvido. E eles conseguiram pegar alguns que tinham envolvimento e outros que não. A minha vida pessoal foi devassada. Tenho 20 anos de polícia, na época tinha 18. Eu moro de aluguel num apartamento de 50m² com a minha família. Ninguém da minha família tem casa própria, ninguém tem bens, sempre vivi com o salário de polícia. Graças a Deus, não acharam nada e começaram a plantar aquelas coisas (Marina Maggessi foi acusada de receber dinheiro do jogo do bicho). A minha expectativa com a noite de autógrafo era para ver minha recepção. Queria saber se o pessoal ainda acreditava em mim. E foi muito bonito, uma festa linda. Estava todo mundo ali, não só os famosos, mas todos os meus amigos da polícia, da infância, um amor tremendo.
A senhora acha que o tráfico poderá influenciar as eleições do Rio?
Isso já está acontecendo. Todo mundo fala: “Vamos impugnar tal candidatura”, mas não vai adiantar nada, porque o tráfico vai escolher outro candidato. O pior foi o tráfico ter ouvido que eles podem se fortalecer politicamente. Isso é muito perigoso. Mais que o próprio fuzil.
Como se chegou a isso?
Por causa do abandono total. Inclusive o nosso, porque o governo que está lá fomos nós quem colocamos. Aqui no Rio é assim, toda hora você vê mudar o discurso: “Tem que matar ou não tem que matar, tem que matar ou não tem que matar”. Agora, a polícia não vai ter mais fuzil, já imaginou? Meus amigos estão dizendo que os vagabundos conversam entre eles e falam: “A partir de agosto a rua é nossa”. Já imaginou o perigo?
Por que nunca mais vimos prisões de traficantes que se tornaram célebres como Uê e Marcinho VP? O perfil dos donos do morro mudou?
Eles não existem mais. Os grande traficantes não usavam drogas, então eles tinham controle das coisas. Só que eles foram sendo presos e mortos durante a década de 1990. Como em qualquer exército, foram subindo aqueles mais novos. E aí foi subindo quem? Quem era “vapor” deles, ou seja, os empregadinhos que eram pagos com cocaína, mantidos viciados para serem controlados. Só que eles não sabem ler nem escrever, têm 20 palavras no vocabulário e são extremamente violentos, por causa da cocaína. É muito mais difícil combater essa gente do que o crime organizado. Porque eles não têm rotina, método nem critério. Eles cheiram tudo o que eles vendem. Aí vão pra rua, roubam, assaltam. Não é igual a um cara que deixa rastro. O Uê, por exemplo, a gente prendeu porque ele tinha três aviões na fronteira com o Paraguai, era dono de metade de Novo Hamburgo. Então ficava fácil.
Os traficantes controlam a venda de drogas de dentro dos presídios. Onde está o problema?
Há uma conivência de uma grande rede. E tem outra coisa. Colocar o Fernandinho Beira-Mar e o Juan Carlos Abadía na mesma prisão é um absurdo, não entendo como ninguém enxerga isso. Prisão federal é o maior absurdo que existe hoje no Brasil. É a federalização do crime. Eles têm um poder de influência muito grande, eles levam um know how para os presos que estão ali. Aí junta tudo, vira um consórcio no crime e eles estão no controle. O que esses caras estão fazendo em Catanduvas (presídio federal)? É porque cria aquele factóide político: “Vou mandar ele pra lá porque vai melhorar o crime aqui”. O que é que melhorou? Estão lá antes da Rosinha (Rosângela Garotinho, do PMDB, que governou o Rio entre 2003 e 2007) sair do governo, porque foi ela que criou esse factóide de “vou mandar eles pra lá e tudo vai ficar bem”. É mentira.
A senhora afirma no livro que a classe média abastece o tráfico. Defensores de drogas como a maconha alegam que, com a legalização, o tráfico estaria fadado ao fracasso. É um argumento lógico?
Maconha é maconha, cocaína é outra coisa. A onda da maconha é de lerdeza, não é a de violência, de maldade, da cocaína. São duas coisas completamente diferentes, que estão sendo tratadas da mesma maneira. Dizer que pode liberar a cocaína para vender na farmácia e reverter os impostos para o usuário, isso é uma hipocrisia enorme. Qual é o imposto que resolve alguma coisa neste país? Segundo: hoje, os morros têm fuzis porque as pessoas têm medo que outras invadam para tomar seu ponto de drogas. A farmácia vai ter que ter fuzil também. O usuário que não tem grana vai ter que invadir farmácia para roubar. Outra coisa: a cocaína é cara em todo o mundo. Com os tais impostos, vai ficar ainda mais. O que gera a violência no Rio? É o usuário na rua, roubando para comprar cocaína.
Um levantamento do Ministério da Saúde mostrou que, a cada dois dias, três pessoas são mortas por policiais. Como acabar com essa cultura de extermínio, que acaba fazendo com que a população sinta medo da polícia?
Para a gente acabar com isso, a gente tem de combinar com o bandido, então. Combinar: você não dá tiro na gente e a gente não dá tiro em você. Porque o poder de fogo dos traficantes cariocas é uma coisa de louco. Quem fica falando esse tipo de coisa fica atrás de uma mesa, lá longe, com ar-condicionado. Então vamos acabar logo com a polícia. Isso é um absurdo. As mortes são muitas? São e vão aumentar, do jeito que está essa política só de confronto, só de repressão. Em 2003, acabamos com o tráfico na Vila Cruzeiro com a prisão do Elias Maluco. Como está a Vila Cruzeiro hoje? Voltou tudo. Ninguém fez nada.
Qual avaliação que a senhora faz do seu mandato?
Está sendo bom, faço parte de três comissões: Relações Exteriores, Meio Ambiente, mas, o mais maneiro, é que sou a primeira mulher vice-presidente da comissão de Segurança Pública. E já consegui conquistar o respeito dos meus pares.
A senhora sente falta da vida de policial?
Sinto muita falta. Mas estou começando a aprender de gostar da política, do trabalho das comissões. Gosto muito de relatar, de debater, encontrei ali um trabalho gratificante. E eu já estou meio velhinha, vou fazer 50 anos. (risos)
--------------------------------------------------------------------------------
Trechos do livro: Dura na queda