14 de setembro 2008
ZERO HORA Entrevista - Marina Maggessi
Patrícia Rocha
Um beijo e fique com Deus.
É assim que a deputada federal carioca Marina Magessi, 49 anos, encerra a gravação na caixa postal do celular anunciando que não pode atender no momento. A mulher que prendeu alguns dos maiores traficantes do país e que fez fama como a primeira a chefiar o Departamento de Inteligência da Polícia Civil no Rio de Janeiro é uma católica fervorosa, que não falta à missa aos domingos. E uma mulher disposta a admitir publicamente ter feito um aborto e ter sido vítima de abuso sexual na infância.
Essas são algumas das revelações de Dura na Queda, a recém-lançada autobiografia que Marina escreveu com a ajuda dos jornalistas Ana Maria Bahiana e Fábio Gusmão. Como esperado, o livro apresenta bastidores das investigações que culminaram nas prisões de criminosos como Uê, Marcinho VP e Elias Maluco, mas desponta principalmente uma mulher dura em outras quedas: as desmedidas do pai que bebia e batia na esposa, a secura da mãe que a fazia se sentir preterida, a desproteção perante o tio que abusou dela ainda menina, um amor que não deu certo, o filho que ela optou que não nascesse. Também há humor e redenção. Marina lembra da liberdade nas ruas do Alto da Boa Vista, das brincadeiras em que impressionava as meninas com a malandragem aprendida com os guris, o sucesso na polícia, onde também chefiou a Delegacia de Repressão a Entorpecentes e fez grandes amigos, e, por fim, a eleição como deputada federal pelo PPS. Não se trata de um texto com pretensões estilísticas, mas do relato de uma história de vida singular. Há desabafos, confissões e alguma autocrítica. Mesmo assim, Marina apresenta a si mesma como uma figura heróica. E todo herói tem antagonistas – os inimigos que teriam armado para ela no episódio que culminou na suspeita de que Marina teria recebido dinheiro de bicheiros para a campanha eleitoral.
A conversa com Marina é intensa: vai da indignação à gargalhada com seu carregado sotaque carioca. Anima-se ao falar da vida de deputada e das comissões de que faz parte – meio ambiente, defesa nacional e relações exteriores e segurança pública – além da CPI dos Grampos. Ela se entusiasma até ao descrever os projetos em que está trabalhando para regulamentar a obrigatoriedade de os navios esvaziarem a água de lastro antes de aportarem no país:
– É algo fascinante!
Donna ZH – Como foi rever a própria história e revelar episódios traumáticos em livro?
Marina Magessi – Uma catarse. Apesar de ter 22 anos de análise (e só por isso consegui escrever tudo aquilo), o processo foi doloroso. Cheguei a pensar em retirar a questão do aborto, porque sou católica, freqüento a igreja... Pensei: “Ai, meu Deus, as carolas vão cair no meu pé”. Mas, depois de escrito, achei tão chocante, não tinha direito de tirar. Algumas daquelas coisas, como o meu tio me molestar e o aborto, podem ajudar muita gente: passo uma imagem de menina superpoderosa, a mulher que chefiou a (Delegacia de) Entorpencentes, e as pessoas não têm idéia do que passei. Serve de exemplo. E o que me levou a escrever também foi uma jornalista da Globo. Fui assistir à entrega de um prêmio de jornalismo, em que ela ganhou com uma matéria sobre pedofilia. Ela foi molestada pelo tio. Só que não precisava ter falado disso no prêmio, mas se emocionou tanto... Daí pensei: “Que mulher corajosa! Vai lá e faz o mesmo”.
Donna ZH – Como têm sido as reações às revelações que a senhora fez?
Marina – Divididas. A igreja é engraçada. Há quem olhe com os olhos do amor, como fez aquele padre que me trouxe de volta para a religião quando eu estava naquela paranóia por ter feito aborto. E há gente que me olha de lado na missa.
Donna ZH – Qual a sua posição hoje sobre o aborto?
Marina – Que ninguém sai impune de um aborto. É a única coisa de que me arrependo. Tive endometriose. Fiz todo tipo de tratamento, duas cirurgias para poder engravidar e não consegui. Acho que criei um castigo para mim. Fui covarde, porque fiz para ficar com um cara de quem gostava para cacete. Mas não acho que a Igreja tenha que se meter nisso. Jesus falou: “Provai e vede, ficai com o que é bom”. Temos livre arbítrio, se uma pessoa quiser abortar, vai abortar... Óbvio que o discurso da Igreja tem que ser esse, pela vida, mas a opção de pecar ou não é do ser humano. O direito da mulher é ao acesso gratuito e limpo (ao aborto) para evitar mortes. Se enquanto Estado laico mantemos uma proibição que está levando à morte, também estamos matando.
Donna ZH – A senhora sempre conviveu muito com homens, das brincadeiras de infância ao trabalho na polícia. O que esse convívio lhe trouxe?
Marina – Toda a malandragem que tenho, todo o desapego. O universo masculino é mais leve do que o nosso. Prazer para eles é ter um carro maneiro, ir pescar, jogar futebol – jogam como se estivessem em um campeonato mesmo, saem na porrada e depois vão beber cerveja. Morro de inveja disso. Aprendi tudo, a parte racional... Mas tenho a grande vantagem de ser mulher. Temos nossa intuição e a visão de 180 graus, que nos permite fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Adoro o mundo masculino, meus melhores amigos sempre foram homens, gosto de conversar com eles... De transar não preciso falar (risos).
Donna ZH – No livro, a senhora ratifica que gosta de homem. Por que se sente cobrada a fazer este tipo de afirmação?
Marina – Mas sou cobrada. Teve um bandido, um garoto, que virou para mim e falou: “A senhora é sapatão? Porque toda vez que a senhora aparece na TV, lá na boca de fumo eles falam: ‘Lá vem esse sapatão f.d.p. de novo’”. Por que isso? Se para os policiais uma mulher se sobressair tanto em um ambiente masculino é problema, imagina para um bandido que é subjugado por uma mulherzinha de 1m60cm. Ela tem que ter um componente masculino ou eles não agüentam. Eles inventaram isso. Quando prendi o maior bandido da Cidade de Deus, ele disse na cadeia que eu lutava, que entrei de cipó pelo apartamento adentro... Não podia dizer que era uma garota de 1m60cm com um revólver capenga de cinco tiros. Toda mulher que aparece em um universo masculino, nego olha de lado. Mas não estou nem aí para essa questão.
Donna ZH – Onde as mulheres têm mais trânsito, na polícia ou na política?
Marina – Acho que no Congresso. Mas nunca tive problema na polícia por ser mulher, tive problema por me manter inspetora. Problema era ser a inspetora-chefe de inteligência do Rio. Não aceitaram isso nem o sucesso da minha equipe, porque equipe igual a minha na polícia não tem. Ninguém consegue trabalhar na polícia 20 anos sem brigar e sem ser envolvido em sacanagem. Vinte anos na polícia e todo mundo mora no bairro em que nasceu, quem tem casa própria é lá no subúrbio. Eu moro de aluguel. E a gente é feliz para caramba.
Donna ZH – Por que a senhora não pretendia incluir no livro o episódio em que foi acusada de corrupção eleitoral?
Marina – Todo mundo poderia achar que estava querendo me autopromover. E as acusações contra mim são extremamente levianas. Primeiro, porque se trata de conversa de terceiros – Fernando, meu parceiro, conversando com o (policial) Marcão, que dizia que iria mandar 30 camisetas para mim, e aí eles colocam entre parênteses: “provavelmente dinheiro”. No dia da eleição, Marcão liga para Fernando e diz “Qual o número da Marina? Arrumei mais uns 30 votos para ela”, e eles colocam entre parênteses “Provavelmente 30 mil”. É uma sacanagem dirigida. E agora está no livro, quero ver me contestarem, mandarem esses áudios para a Câmara, como pedi.
Donna ZH – Onde a senhora encontrou mais corrupção, na polícia ou na política?
Marina – Há corrupção em tudo quanto é lugar. Onde tem dinheiro tem corrupto. Mas não posso avaliar isso até porque todo mundo tem medo de mim lá em Brasília, meu gabinete é um deserto. Não tem lobista, nada... Minha chefe de gabinete fala para mim: “Meu Deus, isso aqui é um marasmo”.
Donna ZH – A senhora está solteira?
Marina – Estou com uma confusão aí, um rolo (risos).
Donna ZH – Uma confusão de Brasília ou do Rio?
Marina – Do Rio. Não há nada que me faça arrumar confusão em Brasília. Deus me livre! (risos) Lá vou do Congresso para casa, de casa para o Congresso. Trabalho para caramba. Quando chega as 22h, não sou ninguém.
Donna ZH – Saudades da polícia?
Marina – Até hoje dói para caramba. Mas e quem disse que eu deixei a polícia? (risos) Sou a primeira vice-presidente da comissão de segurança pública da Câmara em meu segundo ano de mandato. Acompanho o Rio de perto: dou mais entrevista no Rio para a página policial do que na polícia. É uma cachaça.